Dadas as chances
escreva sobre as alegrias
Dadas as chances, qualquer um me consideraria uma pessimista. Na melhor das hipóteses, diriam que sou cética, ou, ainda, realista.
É verdade que eu sempre estive inclinada à melancolia; isso não é segredo para ninguém. Nos últimos cinco anos, fiz do meu trabalho o registro dos cantos mais escuros da mente. Em diários, cartas e poemas, escrevi aquilo que muitos vivem em silêncio: a depressão, a mania, a dúvida de dar continuidade à vida.
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Certa tarde, Liz Gilbert entrou pela minha porta, segurou a minha mão e, olhando nos meus olhos, disse que não podemos deixar de registrar, também, as alegrias, embora por vezes raras — elas também fazem parte da história.
A vida não é feita apenas de escuridão, ela estava me dizendo. Eu podia, também, enxergar (e escrever sobre) o outro lado.
No ano passado, depois de meses trabalhando em um manuscrito denso e doloroso sobre o período depressivo, eu entendi que havia chegado o momento de parar. Eu precisava enxergar para além daquela dor. Decidi engavetar o projeto e dar início ao que se tornaria meu novo livro, chamado O mundo pode esperar.
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É claro que Liz Gilbert não veio a minha casa, mas ela disse o que eu precisava ouvir — seu conselho era dirigido a mim naquele momento, alguém que já tinha passado por momentos obscuros, que se beneficiava deles para a escrita, mas que também precisava ver para além deles.
E por um ano, eu fiz exatamente isso.
No novo livro, treino o meu olhar para registrar não os momentos extraordinários, mas as ocasiões pequenas e corriqueiras que têm um quê de milagrosas — como avistar uma borboleta pousando no focinho de um cachorro na esquina de casa — e parecem fazer tudo se encaixar por um momento.
Acredito fielmente que nós não nos debruçamos sobre os livros para escapar da realidade, mas para aprender a navegá-la. E nesse mundo arisco e frágil em que vivemos, eu espero que este livro seja um norte, um reconhecimento, uma direção — até elas, as alegrias.




Omg ❤️ Um trabalho feito com tanto carinho, que orgulho