Outra vida
pegue seu mapa e volte no tempo
Terça-feira, 12 de maio de 2020
Voltei muito maior do que quando parti, de modo que agora tudo parece pequeno aos meus olhos. Os cômodos, as ruas, as perguntas. Me sinto gigante onde uma vez me encaixei bem. Parti com pouco, mas voltei transbordando, e qualquer coisa em excesso faz mal. Esta é a hora de despejar tudo na página — mas por onde começar?
Evitei os cadernos nas últimas semanas. Estou aprendendo a tomar um tempo para descansar os pensamentos, deixar os sentimentos de molho até que eles amoleçam o suficiente. Ainda não me sinto preparada para pensar no futuro. Traçar planos seria até piada, porque eles sempre são desfeitos. A vida é engraçada assim. Quando você começa a entender alguma coisa e planejar de acordo com o que você sabe, os caminhos mudam, o vento sopra em outra direção, e você se perde de novo.
Hoje tenho um sonho nas minhas mãos e não sei o que fazer com ele. Uma ironia — quando o tempo finalmente chega, a grandiosidade que imaginamos nos paralisa.
A maior parte do que tenho pra dizer não é gentil. Está em mim ser um pouco brusca na honestidade, não é de propósito. Eu mesma temo me ouvir às vezes. Temo o resultado dos dedos soltos. A partir de agora, não será um pedacinho de mim, simplesmente. Não estarei me contando em três minutos, não — eu farei um esforço de percorrer o caminho inteiro, com todas as verdades, mentiras, dúvidas, desejos, erros, dores e alegrias.
Mas e a falta? Parece que estou em uma realidade paralela. Tudo que eu fazia antes com os meus dias ficou suspenso. Antes mesmo da distância social, antes mesmo do roteiro distópico destes dias. A incerteza do futuro, os planos feitos pó e a reclusão foram constantes nos meus últimos dois anos. Então agora você entende. Sinto que não tenho nada. E não ter nada é não saber quem sou, o que estou fazendo aqui. Mas aí, do fundo, me ocorre que tenho a escrita. Foi só o que sobrou: uma ideia.
Alguns dias duvido. Não vejo sentido em contar essa história. Em outros, lembro o poder que as histórias têm. Escrever é costurar os buracos que se abrem no decorrer do tempo. Cada palavra que termina na folha é um ponto unindo a minha pele e marcando um momento. Então seria mais por mim do que para qualquer outra pessoa. Quando se trata de subir uma montanha, não há muita lógica envolvida; você faz para ver o que isso faz com você. E se eu não tenho nada, também não tenho nada a perder.
Não preciso de cartas ciganas para saber que se não estivesse aqui agora, com 26, estaria com 30, e 40, e 50… Algumas histórias precisam ser contadas e nós somos só a ferramenta. Estou exatamente onde deveria estar para começar. No centro da família, de onde vim, onde me fiz. Talvez não pudesse ser de outra forma. Talvez todos os caminhos inevitavelmente me trouxeram até aqui.
Depois de anos em mar aberto, terra firme é preciso.



